Palavra do Presidente

21/03/2019

Futuro de Minas

Flávio Roscoe Nogueira

A sociedade mineira convive hoje com uma das mais dramáticas situações de sua história, marcada pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho. A um só tempo, convivemos, todos, com a dor de centenas de famílias que perderam seus entes queridos e com os devastadores impactos econômicos e sociais decorrentes da paralisação da atividade mineradora no estado. Neste momento, além de dedicar toda a atenção às vítimas, é preciso discutir o futuro da indústria da mineração em Minas Gerais dentro de novos paradigmas no campo da tecnologia e, muito especialmente, da segurança da população. É preciso olhar adiante.

No campo da engenharia e do desenvolvimento de novas tecnologias, a indústria da mineração tem clara consciência de que é indispensável e urgente a realização de estudos profundos sobre os modelos técnicos utilizados no setor, principalmente na construção de barragens de rejeitos de minério. É nessa direção que está mobilizada a energia das empresas que atuam no setor, dos órgãos públicos e fiscalizadores, do Ministério Público, do Judiciário e do Legislativo, na esfera da Assembleia Legislativa mineira e no próprio Congresso Nacional. O que nos move é a consciência da importância da indústria da mineração para o Brasil e principalmente para Minas Gerais.

Também é preocupação consensual, entre todos os integrantes da longa cadeia produtiva da indústria da mineração, o compromisso de que é vital buscar as melhores soluções de engenharia existentes no mundo. É necessário ainda que a indústria da mineração se aproxime com intensidade crescente das comunidades e dos municípios nos quais está inserida. Ela, sem dúvida, se destaca entre as primeiras atividades do homem e, no Brasil e em Minas Gerais, está presente praticamente desde a chegada dos descobridores, a mais de cinco séculos atrás. É uma indústria madura, que sabe que o seu futuro se condiciona à sua capacidade de produzir riqueza com sustentabilidade e, sobretudo, de distribuí-la por meio da geração de milhões de empregos em todo o país e de impostos justos para financiar a implementação de políticas sociais demandadas pela sociedade. É responsabilidade que a indústria da mineração assume.

A sociedade mineira deve zelar pela indústria da mineração, porque precisa muito dela em razão de sua capacidade de gerar crescimento econômico e desenvolvimento social. Estudos realizados pela FIEMG mostram o devastador impacto da redução/paralisação da produção da indústria da mineração no estado sobre os mais importantes indicadores de desenvolvimento econômico e social: faturamento, exportações, arrecadação de impostos, massa salarial e empregos. Registre-se que expressiva parcela dos 853 municípios mineiros depende direta e fundamentalmente da atividade mineradora e que centenas de milhares de pessoas correm o risco de perder seus empregos gerados pela cadeia produtiva do setor.

De fato, em razão da redução da produção já em vigor, estimada em 90 milhões de toneladas, a queda do faturamento total pode chegar a R$ 92,6 bilhões no ano, incluindo setores importantes da cadeia produtiva, como transportes, máquinas e equipamentos, siderurgia, metalurgia, indústria automotiva e equipamentos elétricos. Os trabalhadores devem sentir uma perda de salário de R$ 15,9 bilhões. A redução das exportações atingiria US$ 4,5 bilhões e a dos impostos a R$ 4,3 bilhões, recursos indispensáveis para o financiamento de programas nas áreas da saúde, educação e segurança pública. Estão em risco 851 mil empregos – 12,7 mil na indústria da mineração e 838 mil nos demais setores da cadeia produtiva. O PIB mineiro teria uma perda de 7,3%.

Um cenário mais pessimista, mas factível se providências não forem tomadas, mostra efeitos ainda mais dramáticos. Nele, a perda de produção da indústria da mineração chega a 130 milhões de toneladas este ano, o que implicaria queda de faturamento total de R$ 155,9 bilhões (mineração e demais setores da cadeia produtiva). A perda com salários chegaria a R$ 27,2 bilhões, nas exportações, a US$ 6,6 bilhões, e em impostos, a R$ 6 bilhões. A perda de empregos se elevaria a 17,8 mil na indústria da mineração, totalizando 1,5 milhão de empregos perdidos, considerando os demais setores da cadeia produtiva. O PIB de Minas Gerais amargaria uma queda de 12%.

Mesmo em um cenário bem mais otimista, no qual a queda de produção se limitaria a 74 milhões de toneladas, as perdas seriam grandes, incluindo a mineração e demais setores da cadeia produtiva: R$ 70,1 bilhões em faturamento, R$ 11,8 bilhões em salários, US$ 3,8 bilhões em exportações e R$ 3,7 bilhões em impostos. Os empregos perdidos chegariam a 623.778. A queda do PIB atingiria 5,6%.

Impedir que esses cenários se concretizem é o desafio que precisamos enfrentar e vencer, especialmente considerando a situação de insolvência em que se encontram as finanças públicas em nosso estado. A indústria tem muito a contribuir, pois é de sua essência a vocação e capacidade de construir, transformar, beneficiar e agregar valor. Devemos, sim, lamentar a tragédia consumada, mas, principalmente, devemos tomá-la como lição para construirmos uma sociedade cada vez melhor, mais inclusiva e transformadora.

 

 

“O que nos move é a consciência da importância da mineração para o Brasil e para Minas Gerais.”

Palavra do Presidente

Flávio Roscoe Nogueira
Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – Sistema FIEMG

Publicado no jornal Estado de Minas do dia 21/3/2019

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