Palavra do Presidente

25/04/2019

Nova mineração

Flávio Roscoe Nogueira

Para onde deve caminhar a indústria da mineração em Minas Gerais e no Brasil? Para responder a esta pergunta, realizamos o Seminário Técnico Internacional sobre Barragens de Rejeitos e o Futuro da Mineração em Minas Gerais. Iniciativa do IBRAM – Instituto Brasileiro de Mineração –, o evento realizado na Fundação Dom Cabral teve o apoio das empresas do setor, do poder público e da FIEMG. Contou com a presença de dois governadores – Renato Casagrande, do Espírito Santo, e Romeu Zema, de Minas Gerais – e de dois ministros de Estado – Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Bento Albuquerque, de Minas e Energia.

Os debates, motivados pelos dois rompimentos de barragem – em Brumadinho e Mariana –, nos levam a conclusões que apontam, em primeiro lugar, para a necessidade de profunda reflexão sobre a indústria da mineração, no sentido de garantir segurança à população e assegurar contribuição social aos municípios e estados que recepcionam a atividade mineradora. Apontam, igualmente, para a essencialidade de preservação de uma indústria que produz crescimento econômico e avanço social, especialmente sob a forma da geração de empregos em centenas, talvez milhares, de municípios brasileiros. É atividade que se torna ainda mais importante neste momento em que o cenário econômico se agrava em razão de sinais visíveis e preocupantes de arrefecimento nas projeções de crescimento da economia. As previsões vêm de organizações públicas e privadas (FMI, Boletim Focus do Banco Central), bem como de entidades de classe, como a própria FIEMG e a CNI – Confederação Nacional da Indústria. Uma das causas apontadas é exatamente a redução da produção da indústria da mineração em consequência do rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho.

Se nada for feito, se a indústria da mineração não retomar o ritmo normal de produção, garantindo a segurança ambiental e humana, a tendência é de agravamento deste cenário. Como muito bem lembrou o ministro Bento Albuquerque em nosso Seminário, a indústria da mineração é responsável por 4% do Produto Interno Brasileiro (PIB), por 21% das nossas exportações e pela geração de quase 200 mil empregos diretos e mais de 2 milhões de indiretos. Frear esse setor, portanto, representa frear o PIB, reduzir o saldo do nosso comércio exterior e desempregar em massa.

Estudos realizados pela Fundação Getúlio Vargas confirmam que o corte de 92,8 milhões de toneladas na produção da Vale em Minas Gerais (23% da produção nacional), estimado pela própria empresa, terá impacto de 0,2 ponto percentual no PIB nacional este ano. Se o crescimento do PIB for de 2%, como prevê a média das projeções. E é bem provável que seja ainda mais, em razão da revisão das projeções de alta que já apontam crescimento ao redor de 1%.

Para Minas Gerais, que tem na mineração a base de sua indústria e de sua economia, o impacto será catastrófico – uma tragédia. Certamente por essa razão, em nosso Seminário, o governador Romeu Zema advertiu para a necessidade de se repensar a atividade mineradora. Se o PIB nacional perde, com a redução da produção mineral, de 10% a 20% do seu crescimento estimado para o ano, Minas Gerais perde muito mais. Estudos que realizamos na FIEMG indicam a perda de 850 mil empregos diretos e indiretos na cadeia produtiva da mineração. Nosso PIB, cujo crescimento foi estimado em 3,3% em dezembro do ano passado, poderá crescer negativamente – 4% –, caso persistam os impactos no setor extrativo, em seus fornecedores e nos setores demandantes.

Nossos estudos também mostram que, em um cenário de redução da produção mineral de 90 milhões de toneladas anuais (até 2020) e 65 milhões de toneladas em 2021, a cadeia produtiva da indústria da mineração perderá R$ 107,1 bilhões em faturamento, R$ 18,6 bilhões em massa salarial, R$ 4,5 bilhões em exportações, R$ 4,3 bilhões em impostos fundamentais para financiamento de políticas públicas e mais de 1 milhão de empregos na cadeia produtiva.

Registre-se, ainda, que importantes municípios mineiros serão fortemente impactados, uma vez que sua principal fonte de arrecadação é a CFEM – Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais. Dentre os 15 primeiros municípios brasileiros no ranking dessa contraprestação, 11 são de Minas Gerais: Nova Lima, Congonhas, Itabira, Itabirito, São Gonçalo do Rio Abaixo, Mariana, Brumadinho, Paracatu, Itatiaiuçu, Ouro Preto e Conceição do Mato Dentro. Minas, naturalmente, é o estado que mais arrecada a CFEM no país.

Nosso Seminário mostrou, com números e experiências de outros países, que é possível minerar com segurança para a população. E também demonstrou que a indústria da mineração cumpre missão estratégica na promoção do crescimento econômico e para o financiamento de políticas públicas inclusivas e transformadoras. Por tudo isso, como lembrou o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, não se deve demonizar a atividade. Deve-se, sim, exigir que seja feita com segurança e responsabilidade social empresarial. Isso é o que todos queremos – uma nova mineração para Minas Gerais e para o Brasil.

 

“A indústria da mineração é responsável por 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e por 21% das nossas exportações.”

Palavra do Presidente

Flávio Roscoe Nogueira
Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – Sistema FIEMG

Publicado no jornal Estado de Minas do dia 25/4/2019

Edições Anteriores

  1. Reforma, estados e municípios

    Leia

  2. Gestão Pró-Indústria

    Leia

  3. Previdência: reforma ou falência?

    Leia

  4. Pacto por Minas

    Leia

  5. Nova mineração

    Leia

  6. Em dias de sol

    Leia

  7. Futuro de Minas

    Leia

  8. Um novo país!

    Leia


Confira artigos anteriores